A origem do sonho de Cruzes em virar cidade e a expressão “futura cidade de Cruzes”
No início da década de 1950, houve o movimento de emancipação de Cupira, agreste de Pernambuco, que se desmembrou do município de Panelas, em 1953, e foi instalada oficialmente como município em 20 de maio de 1954. Nesta época também foi cogitado a independência de Cruzes, atual segundo distrito de Panelas, bastava que a população aderisse ao movimento na região, que emancipou Cupira e que mais tarde viria a emancipar Ibirajuba (em 1963), porém, essa ação era contra os interesses do coronel que mandava em Panelas.
(…) veio para Cupira como prefeito em Panelas, aí na época do governo Agamenon Magalhães ele entrou com uma ação para independer Cupira, fazer de Cupira uma cidade, então houve uma discórdia entre ele e José Rufino que chegaram o ponto a intrigasse (LIMA, Adilson Luiz Guilhermino. 2009, p. 28).
As decisões políticas na região tiveram forte influência de Sebastião Marques de Mello Bastos (ex-prefeito de Panelas), o “major Bastos”, protagonista da ação para independer Cupira, causando a intriga com José Rufino de Mello e Silva, o coronel Zezinho Rufino, de Panelas, na época os dois eram amigos, inclusive foi Zezinho, na época Prefeito de Panelas, que acolheu Bastos em sua casa quando o mesmo veio de Alagoas para Pernambuco.
O prefeito de Panelas, Zezinho Rufino, muito conceituado junto ao governador, apresentara o amigo recém-chegado, contando toda a história. Não poderia haver melhor acolhida. Instalar-se, colocar a cabeça no lugar, imaginar os próximos passos. Era isto que Sebasto precisava fazer. Uma decisão já estava tomada: Alagoas, nunca mais (BASTOS, Paulo de Mello. 2003, p.221).
Segundo relatos dos mais velhos, devido a essa desavença entre os dois, Major Bastos cogitou também emancipar Cruzes, provocando mais ainda Zé Rufino. Major Bastos tinha notória influência com políticos de poder suficiente para levar um decreto de emancipação adiante, como o ex-senador Apolônio Sales, os ex-governadores de Pernambuco: Agamenon Magalhães e Etelvino Lins de Albuquerque, o ex-deputado Manoel Cordeiro de Melo Filho, coronel Cordeirinho, de Lagoa dos Gatos, o que tornava provável ter conseguido emancipar Cruzes na época.
Contudo, a população local não quis desafiar quem mandava na região, e como se sabe, Cruzes não virou cidade e passou a ser o segundo distrito, em 15 de março de 1958, na gestão de José Rufino. Desde então, esse sonho de emancipação foi cultivado entre a população local, chegando aos anos 2000 com ideias e narrativas de independência promovidas por políticos e populares locais, porém as regras mudaram.
A emancipação de municípios no Brasil é regulamentada pela Constituição Federal, de acordo com art. 18, §4º, exige critérios como população mínima regional, estudo de viabilidade econômica e administrativa, e um plebiscito com aprovação das populações envolvidas (município-mãe e distrito). Os requisitos incluem população acima de 12 mil para a região Nordeste, infraestrutura urbana e comprovação de capacidade de autossustentabilidade.
Assim sendo, os dados apresentados em censos do IBGE (2022) indicam uma população de 22.991 pessoas em todo o território do município de Panelas, o que significa que uma eventual emancipação do distrito de Cruzes, com a população dividida em duas partes iguais, os municípios gerados teriam cerca de 11.495 habitantes cada, entretanto, não é assim que funciona, pois o maior contingente populacional se concentraria na cidade mãe (Panelas), que tem cerca de 10 mil habitantes, ficando cerca de 13 mil habitantes divididos entre: Cruzes, São Lázaro, São José do Bola, povoados e demais localidades da zona rural do município de Panelas. Em um cálculo simples de estimativas, levando em consideração o tamanho da localidade e quantidade de eleitores, Cruzes teria cerca de 6 mil habitantes, incluindo os povoados e sítios ao seu redor, ou seja, apenas 50% do total necessário para atender o requisito de população acima de 12 mil habitantes.
Em suma, as expressões “futura cidade de Cruzes” ou “Cruzes futura cidade” remetem as narrativas e ideias de independência da época em que teve a oportunidade de isso realmente acontecer, e que se popularizaram nos anos 1990 e 2000, mas tornou-se inviável atualmente devido aos requisitos constitucionais rigorosos para a emancipação, entretanto, são os sonhos que tornam a vida interessante.
Referências Bibliográficas:
LIMA, Adilson Luiz Guilhermino. Diferentes Olhares Sobre a História de Cupira Pernambuco. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2009.
BASTOS, Paulo de Mello. Tauã: a verdade verdadeira que seu Noberto contou. Rio de Janeiro: Editora Massangana, Rio de Janeiro: Família Bastos Produções, 2003.
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 7 dez. 2025.
